O caderno de capa azul

#crônicas

Ele me acompanha há 22 anos.
Não comprei, ganhei de algum propagandista ou algo do gênero. Nem reconheço mais a logomarca nele, de tão gasto.
E é usado sistematicamente nesses 22 anos. Coisa herdada, relíquia de família, que vale mais que qualquer jóia em ouro.
Velho, sujo, cheio de manchas e restos…. e gasto… muito gasto….
Cada vez que eu abro, um sorriso, uma lembrança, um calor no coração….
O começo dele foi glorioso. Era organizado, com separações, números nas folhas, para marcar as páginas e até índice tinha… o caderno de capa azul….
E aos poucos, a falta de tempo, a preguiça (ou a desculpa da praticidade), fui deixando de organizar e simplesmente cortando e colando o que importava….
E aí???? Já adivinhou o que é???

Sim…. é um prosaico caderno de receitas…
Demodé, não é não????
Hoje, com tudo ao alcance das mãos, do celular, prá que isso???? Que antiquado!!!! Vocês podem me dizer….
Se bem que esta mudança de paradigmas e de rumo nas nossas vidas que esta pandemia trouxe, fez todo mundo cozinhar em casa de volta (entre outras importantes mudanças).

Vamos aos porquês:
-20 anos atrás o celular era quase coisa de ficção científica. O máximo da modernidade e do status era ter o pager;
-mulher naquela época, tinha mais é que se preocupar com carreira, nada de se preocupar com tarefas domésticas-coisa do século (oooops…. milênio passado);
-cozinhar igualmente, uma coisa que era clichê de dona de casa e afff!!!!! nunca que eu vou lavar, passar e cozinhar…. vou ter empregada!!!
E aí, a vida vem e desconstrói tudo o que você achava que era a última grande verdade…
Com 20, 30 anos no meu caso, a gente acha que sabe tudo né????? #SQN bem grandão na sua testa!!!
E você vai amadurecendo, entendendo a vida e conhecendo o mundo real. Não aquele que você tinha, protegidinho na sua concha.
Mas… voltemos ao protagonista desta história: o caderno de capa azul começou assim: escrito a quatro mãos (ou duas, sei lá), com as letras da minha mãe e da minha irmã.

Folha de caderno com receitas enumeradas de  1 a 23

O começo do caderno. Com as letras bonitinhas da minha mãe e da minha irmã.

Com as letras redondinhas e organizadas, elas foram colocando as receitas “sucesso” da família. Aquele kit básico… as mais mais ( o rocambole da Ako tia, o bolo de iogurte da tia Kaoru).
Me lembro, um pouquinho antes de casar, cada dia, à noite, elas escrevendo um pouquinho no caderno. Minha mãe colocava o título da receita em japonês, claro. (Fiz 8 anos de nihongakko para que????? oras….) e com legenda, para não restar dúvida….e assim, as receitas recebiam já uma prévia da fonte também.
-Leite condensado-Cláudia (a revista)-”melhor”;
-ou de promessas de receitas promissoras que eu poderia fazer: “Bolo de queijo cremoso-Noviça- Casa de Chá”;
Elas começaram e deram o caderno despretenciosamente, para eu continuar na minha nova casa. E na minha nova vida. Longe delas. Já contei aqui sobre esta irmandade feminina. Muito antes do sagrado feminino ou do auê feminista, já vivemos isso em casa.
E eu fui preenchendo… assim como fui preenchendo a minha vida…
No começo, tinha divisão, doces e salgados, com índice e tudo, mas isso eu já falei.Tudo planejado… tudo organizado… tudo certinho…
Depois virou uma quizomba.
Só eu consigo achar as receitas sem ordem nenhuma agora. Só na minha cabeça. Porque tem uma certa ordem na organização e tem o fator temporal. Então eu sei onde estão as receitas….
A maioria das receitas levam o nome das pessoas:

Receita de bolo de banana

Bolo de banana da Geysler. Grande fonoaudióloga que trabalhou comigo também e adepta das receitas mais naturais. Trocávamos várias receitas desse gênero.

O chandelly da Tereza, a massa de pizza do Benjamin, o risoles da tia Kaoru, a torta de morango da Ivete, a torta salgada da Val, (assim como o bolo verde e que teve outros nomes, por outras pessoas, como o bolo Hulk), o bolo de banana da Geysler, a torta de espinafre da Sinair….
Cada receita evoca uma pessoa, que lembra bons momentos de compartilhamento de conversas, gostos e experiências.
O melhor ainda é quando a pessoa escreveu a receita num pedacinho de papel e eu fui grampeando. Esteticamente é horroroso, mas afetivamente, é um tesouro.
Lembro do momento, do jeito da pessoa, provavelmente acabávamos de ter experimentado a iguaria e então,vinha o fatídico pedido da receita…
Digo isso sempre… a comida revela muito sobre uma pessoa… seus gostos, seus anseios, suas experiências, suas vivências e até a sua relação com o mundo.
Agora, a pessoa que não gosta de comer para mim tem uma relação bem difícil com a sua própria vida… #terapiajá!!!!!
Cada um tem um jeito de guardar lembranças..
Quando eu era criança, tinha o caderninho de recordações… as crianças de hoje em dia não sabem o que isso possa ser…. tem gente que coleciona fotos, colchas de retalhos, bibelôs, uma infinidade de coisas….

Receita de bolo de fubá em papel azul.

Receita de bolo de fubá do S. Robertinho. Trabalhou comigo um tempão. Era um exímio cozinheiro e a primeira vez que experimentei rabo foi preparado por ele. Isso rendia gostosas gargalhadas toda vez que comentávamos a experiência….

Muita gente que me deu receita já não está mais neste plano. O que torna aquele velho pedaço de papel sujo, carcomido e desgastado mais valioso ainda!!!
Eu coleciono lembranças em fotos, em posts do blog e neste velho e sujo mas amado caderninho de capa azul!!!
E qualquer semelhança entre este caderninho com a minha vida real é mera coincidência. Até os clichês que saíram neste texto!!!!
Vai lá!!! Vai juntar suas memórias também!!!!!

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