Highlands-Por Baixo do Saiote Escocês

Capa do livro Highlands- Por Baixo do Saiote Escocês

Esse post, faz parte do lado B (nem tão B assim…rsrsrs) e contamos aqui 

Autor: Guilherme Cavallari

Editora Kalapalo- 2017

…“este livro também trata de história, de filosofia e da arte de viver. Complexo e intimista a narrativa expõe muito mais que apenas a região minunciosamente explanada. A aventura de percorrer sozinho, os 400 km de extensão da Cape Wrath Trail, nas Highlands da Escócia”….

Nossa história (resumida) com Guilherme Cavallari:

-Guias antigos que compramos para a viagem para Torres del Paine (em 2011);

-Encontros “de longe” nas feiras da Adventure Sports Fair;

-Conversamos com a Adriana Braga através do Samuel Taets, da Pousada da Gameleira, em Conceição do Mato Dentro em 2014, antes da nossa viagem para El Chaltén para ela explicar sobre os alimentos liofilizados;

-visitamos a antiga residência na Pompéia, para ver o bazar que ele fez para vender equipamentos antigos para levantar fundos para a expedição Transpatagônica;

-acompanhamos o blog desde sempre e “vimos” sua mudança para Gonçalves.

E só nos encontramos pessoalmente  na Adventure Sports Fair de 2018, onde pedimos autógrafo para este livro. 

O Guilherme Cavallari (deu para notar???) é um desses caras que a gente admira, paga o maior p….

Ele começa com uma coisa que é muito parecida comigo….rsrsrs…. “difícil imaginar maneira pior de começar uma narrativa de viagem do que tentar justificar a viagem a ser narrada”…. sou dessas que acho que quem está me “conhecendo” tem que entender a motivação e de onde começou toda a história… até de viagens… 

Logo na primeira página, a referência de John Muir já dá uma bela pista que vou gostar do que tenho nas mãos.

Ele começou a se desnudar na segunda e terceira página, falando dos seus projetos e também dos seus medos. (Poxa… o meu ídolo é também gente… de carne e osso, tem também seus medos e seus receios!!!! ) 

Daí para frente foi em desabalada carreira. Li bem rápido o livro. 

Fiquei bem impressionada com o nível de pesquisa e de planejamento que Cavallari tem para montar uma expedição. E tem que ser assim mesmo!!!!

É uma e.x.p.e.d.i.ç.ã.o. … Não é uma trilha demarcada, uma rota autoguiada, com postes coloridos marcando o caminho… ou ele não vai (como várias vezes já fizemos), seguindo um guia à frente do caminho…

Foram quilômetros, na maior parte trilhados sem ver viva alma na frente.. sem poder tirar dúvida ou perguntar sobre o caminho….

  E a cada passagem nos faz sentir mais próximos, vivendo com ele tudo aquilo.

Contra capa do Livro Highlands-Por Baixo do Saiote Escocês- Um mapa com várias localidades da Escócia, mostrando o trajeto do Cape Wrath Trail

A Cape Wrath Trail, “a travessia mais difícil da Grã-Bretanha”

No terceiro capítulo, onde conta sobre a 1ª exibição pública do longa metragem Transpatagônia, Pumas não comem ciclistas que obviamente assistimos assim que lançado na Netflix), nos faz sentir a dor e o desespero que ele passou, mas não vou dar spoiler aqui. 

E de novo, aquela sensação de “gente como a gente”. 

Passamos a fase da viagem e da expedição propriamente dita. 

Gosto muito do jeito que ele relata tanto das cidades, como dos detalhes logísticos, tão familiares a nós, como baixar o peso da mochila ou visitar as lojas de artigos esportivos locais. 

E vou acompanhando  e sentindo como se estivesse realmente ali, viajando com ele através do seu olhar também histórico e cultural. Particularmente adoro essa veia dele, de se aprofundar no povo, na história local, nos acontecimentos que fazem aquele lugar (e as pessoas) serem o que são. 

Ouço falar pela primeira vez da cultura Highlander, fora do clichê que a gente acostumou a ver aqui e ali, nos filmes como Brave Heart, do Mel Gibson ou Rob Roy…. e também da violência feita pelos ingleses nesta cultura antiga. Por causa do livro também começamos a assistir (e acabamos maratonando a série Outlander).

E do Levante Jacobita. E da música que não sai dos meus ouvidos, Skye Boat Song. (Se bem que desde sempre gostei deste tipo de música). 

E dos bothy ou bothies, no plural, um abrigo simples mantido pelo proprietário das terras. E também da triste história por trás destes abrigos. No caso dos bothies, como diz a Júlia, estarmos abrigados sob um teto e quatro paredes é um luxo, que a barraca não pode proporcionar em noites de chuva ou de neve. Ele conta sobre a Mountain Bothie Association, MBA, que tem hoje 100 bothies em seu portifólio, a maioria na Escócia. E começo a sonhar em dormir em um destes abrigos!!! 

Passo aflita com o autor pelos campos e bogs alagados e travessias de rios….

Com estas mini pernas e estes mini joelhos, como brinca o ortopedista que me operou (que também é trilheiro!!!)  recentemente, eu teria muitos problemas para passar por estes obstáculos!!!!

No livro também sabemos da história dos expatriados, onde o Canadá é o destino favorito, principalmente na província de Nova Escócia, que nos remete a outra série maratonada: Anne with an “E”.

Descreve com perfeição e com detalhes o que todo caminhante, todo trilheiro, toda pessoa que gosta de se conectar com a natureza sente em cada saída… O reencontro consigo mesmo, o pensar profundamente sobre os acontecimentos da vida, nas pessoas queridas que nos cercam, nas incertezas e angústias e também nas riquezas que a vida nos dá em pequenos momentos. Quem nunca passou por isso numa trilha?????

Os perrengues de trilha, sensações de pânico ao se perder (ou pensar que  perdeu) o equipamento, o rastro da trilha, apesar de não serem comparáveis aos do autor, nos são bem familiares também. 

Assim como a sensação de liberdade ao descarregar o mochilão (ou alguns nomes carinhosos que vamos dando à monstra ao longo da trilha) e se ver livre e solto, podendo caminhar sem uma âncora de 20 kg (que a cada passo parece aumentar 1kg pelo menos)….

A falta de coisas simples, como frutas e verduras frescas. Às vezes, uma simples barra de chocolate é um deleite, um manjar dos deuses, no final de uma trilha pesada!!!

Abaixo dos letreiros do livro, uma dedicatória do autor: Os Caminhantes: A grande aventura é explorar o desconhecido dentro de nós mesmos, Abraço, Guilherme Cavallari

A dedicatória guardada aqui a chave de ouro.

E todo este “sofrimento” aos olhos dos outros, é difícil explicar, o que remete também, de como vivemos a nossa vida familiar e criamos uma filha nesses moldes.

Isso nos faz pensar vez ou outra, mas o fato é que essa fase já passou praticamente. 

Nos conhecemos nas trilhas, nosso investimento e esforço são voltados para isso aqui e aqui  e criamos outro ser humano nestes moldes.. Júlia faz 21 anos este mês, então, se fizemos errado ou não, o estrago já está feito.

Dei risada sozinha da descrição das botas fétidas. Sei bem o que é isso. As nossas são deixadas sempre em algum lugar de trilha ou de viagem. Primeiro porque é um peso a menos na bagagem de volta e depois pode ser que possa servir para outro pé cansado (e infantil, no meu caso). Estão sempre velhinhas, mas podem ter um destino melhor. E sempre dizemos que elas têm uma morte digna, não numa lata de lixo. Elas ficam em alguma varanda, alguma soleira, como se fossem “esquecidas” para alguém poder encontrar depois. 

O que sempre penso também enquanto leio os livros dos mestres, é que jamais conseguirei a performance deles. Eles são, como nós chamamos aqui em casa (corruptela de uma colega de serviço) de “os alienígenas rosas”. Esta colega chamava assim, os gringos que encontramos nas trilhas que normalmente são muito brancos e devido ao sol e ao esforço se tornam cor de rosa… e andam como se não sentissem o cansaço, como se não fossem humanos.

Não entendo como alguém consegue fazer 20,30 km num dia e o pior, em algumas poucas horas. Não somos muito “os caminhantes”. Em subida, digo sem pudor nenhum que sou mais para “rastejante”. E eles parecem não se cansar!!!!!!!

Mas… credito isso às minhas mini-pernas que provavelmente têm que dar 3 passadas para equivaler a de um ser humano normal… talvez a E.T seja eu, como dizia meu falecido sogro….

A pergunta indefectível que nos assola de vez em sempre “O que estou fazendo aqui?????” também é (ou deve bem ser) comum a todos os trilheiros. 

Me fez ficar com fome a cada descrição dos pratos que saboreia nas poucas paradas na civilização.

Seis meses depois (aviso de spoiler), ele volta com a Adriana, sua companheira, na tanden, e não preciso dizer que acompanhamos todos os percalços desta viagem nas redes sociais. 

Não vou contar o final do livro, porque é um spoiler de novo e porque essa é a minha observação sobre o livro. 

Como ele diz já no finalzinho: 

O grande esforço fica sempre concentrado na minuciosa observação em busca do que seja autêntico, ressoe como legítimo na mente do leitor e cause uma reação”. 

Cada livro, cada filme é uma nova experiência e ainda que o autor não saiba qual foi o efeito de sua obra sobre cada leitor ou espectador, estes foram os efeitos que produziu em mim. Que mesmo que eles não cheguem a nos conhecer (isso não é relevante no final das contas), que produzam este efeito e nos façam refletir a cada nova experiência. Que reafirmem (ou que façam abandonar) padrões de comportamento, prioridades e caminhos.

Essa proximidade, essa familiaridade, essa sensação de “pertencimento”, essa coisa de “puxa… não somos só nós que pensamos/vivemos assim”….

E estas impressões me fazem continuar neste caminho, dentro das coisas que gostamos, que acreditamos e priorizamos nas nossas vidas.

 Até hoje.

2 Comments on “Highlands-Por Baixo do Saiote Escocês

  1. Uau! Fiquei emocionado com o texto, nu e cru, como bicho que perde a pele. Estou entre lisonjeado e um pouco “envergonhado” porque não consigo me enxergar tão alto assim… Mas queria agradecer imensamente o relato da experiência com meu livro HIGHLANDS e nossos breves encontros. Parece que estou num Big Brother, sempre sendo observado, rs… Mas esse livro, em particular, foi muito difícil de escrever. Quando sentei pra começar a redação e olhei pra dentro de mim, vi uma confusão de emoções não diretamente relacionadas com a Cape Wrath Trail e pensei: “deixo isso de fora e concentro na aventura ou incluo no texto?”. Um pergunta retórica, porque não consegui deixar de fora o que, na época, era parte da minha composição (material e textual). O resultado está no livro, que nem todo mundo gostou. Pra mim foi um alívio ter terminado a obra, meio que uma catarse. Hoje fico muito feliz por ter escrito como escrevi, ralado, sangrando, fedido e feio… Muito obrigado por dividir de forma tão visceral e digna sua experiência com a leitura.

    • Oi Guilherme!!!
      Muito obrigada por seu relato aqui, tão prazeroso quanto ler um dos seus livros ou um dos seus posts!!
      E uma honra, afinal somos seus seguidores há muito tempo, como eu já coloquei de forma resumida.
      Essa essência verdadeira, essa coisa de ser tão pessoal, tão verdadeiro é o que separa um escritor que escreve “por escrever” e alguém que acaba usando a escrita como catarse como foi neste caso.
      E isso é o que te aproxima das pessoas!!!
      Sim….deve ser estranho você fazer parte da vida de pessoas que não tem a menor noção de quem sejam…rsrs…deve ser esquisito mesmo!!

      Um grande abraço e agora só falta a gente fazer uma visita aí no Refúgio!!!
      Marcia

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