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Cânions de Xingó

Desde nossas incursões por terras sergipanas há dois anos (na verdade o lugar fica na divisa entre o Sergipe e Alagoas) por motivos de… bom.. todo mundo sabe, a expectativa de conhecer o tão famoso Cânions de Xingó foi cada vez aumentando, culpa das imagens e dos posts aqui:  

https://www.matraqueando.com.br/canion-do-xingo-como-visitar-o-belissimo-atrativo-que-projetou-o-sergipe-no-mapa-turistico-nacional

https://misscheck-in.com/2011/03/08/xingo-canion-rio-sao-francisco-sergipe/

Na nossa última visita, tivemos a oportunidade finalmente de riscar este destino da nossa lista de desejos.

O cânion, às margens do Rio São Francisco é resultado do represamento das águas do rio para a Usina Hidrelétrica de Xingó.
A paisagem é sim, estonteante. É inusitado você encontrar tanta água, de um verde intenso, em abundância em pleno sertão nordestino. É literalmente um refresco e um deleite para aquele calor.
Mas….(desta vez teve o incômodo  daquele mas…) algo não correspondeu às nossas expectativas. Mas conto daqui a pouco a razão deste desconforto.

Este post infelizmente não termina bem (spoiler) e não consegui contar de modo entusiasmado sobre o lugar. Se você quer continuar apenas com a visão do turista normal (sim, também somos, mas com uma vibe Eco), recomendo que leia os posts acima, que estão bem completos e informativos.

Formação rochosa com pedras sobrepostas, em diversos tamanhos. Uma pedra acima de toda a formação lembra o bico e a cabeça de uma ave.

Pedra do Gavião, no Cânions de Xingó- divisa de Sergipe com Alagoas

Pela recomendação dos posts acima, decidimos dormir uma noite na cidade de Piranhas, que é um atrativo a parte (e fez valer a viagem). Existe o clássico bate e volta, saindo de Aracaju, mas pela correria disseram que não valeria a pena. São seis horas de viagem, três para ir  e três para voltar, fora o passeio em si, que leva em torno de três horas.

Como fazer o passeio

O passeio é agendado com antecedência nas agências locais. Praticamente um monopólio, que operam quase da mesma maneira e com os mesmos preços… o que muda é o atracadouro e o ponto de partida.

-A MF Tur https://www.facebook.com/mfturxingo, que nós contatamos logo que chegamos em Piranhas e agendamos o passeio para o dia seguinte. A agência usa o restaurante Karranca’s como ponto de partida e o Porto de Brogodó, uma estrutura flutuante.

-A Nozes Tur http://www.nozestur.com.br/pag_passeio_canion.html é a maior operadora que sai de Aracaju, que faz a base também no restaurante acima.

-Neste ótimo post da Ana, do Miss Check In, (autoridade em assuntos do Sergipe) https://misscheck-in.com/2016/09/11/passeio-pelo-canion-do-rio-sao-francisco-partindo-de-olho-dagua-do-casadoalagoas/ você encontra outra alternativa, mais em conta e melhor que se você sair de Piranhas.

Como foi o nosso passeio

Foto de restaurante com mesas com tampo de vidro e quatro cadeiras de madeira em cada lado. Observa-se cerca de 6 fileiras de mesas. O teto do restaurante é de palha

Restaurante Karranca’s, o ponto de partida para o passeio dos Cânions de Xingó

Compramos o voucher no dia anterior na MF Tur, marcado para sair do restaurante Karranca’s às 9h00. Outros horários seriam às 11h30 e depois às 14h00.

Estávamos em Piranhas, na Pousada Trilha do Velho Chico https://www.facebook.com/trilhadovelhochico/, tomamos café rapidinho e seguimos em direção à Canindé de São Francisco, seguindo as placas indicativas para o restaurante Karranca’s, que fica depois da Usina Hidrelétrica de Xingó. Você não vai chegar até a cidade, é em direção oposta.

O estacionamento fica na própria estrada e têm flanelinhas guardando o carro, por R$10,00. Sinal da “modernidade” e do apelo turístico local.

Você tem a opção de comprar o voucher lá na hora mesmo. Chegamos cedo, entregamos nosso voucher para o pessoal receptivo lá, tivemos um tempo de dar uma olhadinha na estrutura, olhar as indefectíveis lembrancinhas, usar os sanitários e esperar chamarem o nosso nome nos alto falantes.

O catamarã é grande, dizem ter capacidade para 250 passageiros, têm 2 chuveiros, 4 banheiros, som e serviço de bar a bordo (tcharã!!!!! do próprio restaurante Karranca’s).

Há também um serviço que vai tirando fotos suas e de sua família durante o passeio.

A embarcação estava bem tranquila, pois estávamos fora de temporada ou de feriado. Visitamos o cânion num sábado, depois do Carnaval.

A trilha sonora basicamente o repertório clássico da música nordestina, era de vez em quando interrompida pelas explicações da guia local.

Grande formação rochosa, com rochas alaranjadas e marrons sobre água verde escura. Céu azul intenso.

Formações rochosas belíssimas no Cânions de Xingó

Conforme a guia ia explicando a construção da hidrelétrica, o trabalho de salvamento arqueológico das propriedades que seriam inundadas na época da construção, a saída forçada dos macacos da Ilha que foi batizada em homenagem à eles, somado à música alta que vinha das caixas de som espalhadas em toda embarcação, um sentimento de perda, de agressão à natureza foi tomando conta da gente.
Sim… somos ecoturistas essencialmente.
Então uma paisagem, ainda que agradável aos olhos não sendo natural, nos agrediu e foi incomodando…

Os paredões são bem bonitos, a água verde é linda, o vento no rosto e no cabelo é marcante, mas a sensação de “perda” foi inevitável… e estragando o passeio… bem devagarinho… minando aquela sensação gostosa de  conhecer um lugar novo aos pouquinhos…

Passamos por alguns pontos onde a formação rochosa lembra algumas figuras, a Pedra do Gavião, do Japonês e outras atrações, como a figura em homenagem a São Francisco, claro e o ponto alto (segundo a música dramática e a emoção da guia), o Paraíso do Talhado. A empolgação de todos era inversamente proporcional à nossa.

Embarcação ao fundo da foto. À frente, lago com águas verdes escuras e demarcação com borrachas flutuantes, formando uma grande piscina natural.

O Porto do Brogodó , ponto de parada na visita aos Cânions de Xingó

Chegamos em seguida, ao Porto de Brogodó, uma embarcação flutuante, grande, onde todos têm que desembarcar do catamarã. Somos avisados que a parada é de 1 hora, para banho, no quadrado formado por aqueles macarrões de borracha flutuantes de natação, com área para adultos e crianças e opcional o passeio de barquinho até a Gruta do Talhado, que todo mundo já viu em foto em algum lugar e custa R$ 10,00 por pessoa

Paredões verticais com rochas alaranjadas e marrons, cerca de 10 m de altura formam um cânion de cerca de 7 metros de largura. Água verde escura e pessoas com colete em um pequeno barco passam por entre os paredões

A entrada na Gruta do Talhado, acessível só por barquinho.

Você paga diretamente ao barqueiro, em dinheiro e o passeio leva cerca de 10 minutos até o ponto final, onde tem também uma pequena figura esculpida em barro de São Francisco. A curiosidade, segundo o barqueiro é que aquele ponto foi filmado na novela global Cordel Encantado e que os hóspedes de uma pousada local têm acesso à pé até aquele local.

Cânion estreito com paredões rochosos marrom e laranja. Ao fundo, um caminho de terra. Árvores baixas e arbustos pequenos ao fundo. Na pedra à direita, duas figuras pequenas de barro no meio de uma fenda.

O final do passeio de barquinho na Gruta do Talhado, no Cânions de Xingó

O barquinho faz a manobra e mais uns 10 minutos estamos de volta ao Porto de Brogodó. Os dois aproveitaram para entrar na água, claro. Eu fiquei sentada observando o movimento… vi o comércio local, alguns ambulantes aproveitam para vender doces, vi lanchas chegando de modo mais independente, não atracam na embarcação e seguem direto para a Gruta do Talhado. Parece ser uma opção mais rápida (e talvez mais barata).

Mais um tempinho e somos chamados para voltar para o catamarã.

Observamos o catamarã que saiu depois do nosso, o das 11:00 horas. Bem mais cheio. Então fica a dica: aproveite para sair no primeiro horário.

Voltamos para o ponto de partida, o restaurante Karranca’s, mas não aproveitamos o bufê turistão. Já havíamos lido relatos do preço abusivo, porque é o único na região e todo mundo volta morrendo de fome.

Tínhamos levado um lanchinho, petiscamos no catamarã mesmo e ainda passamos no Museu do Xingó, que conto em outro post.

Um pouco da história e do impacto ambiental

A despeito do desenvolvimento econômico trazido pela hidrelétrica, etc, etc,etc,  não poderia deixar de pesquisar um pouco sobre o assunto, porque o gostinho amargo depois da visita (e também para escrever esse post) ainda pairava como um fantasma ecochato…e infelizmente pude constatar que nossas percepções não foram só um “achismo” :

Se você acha tudo isso muito Ecochato e Greenpeace Vibe pule essa parte.

Os textos são bem semelhantes na sua essência, mas fiz questão de deixar praticamente inteiros, e não fragmentos para dar a magnitude do impacto ambiental causado.

https://prezi.com/q-0ffs1jg5a3/impactos-ambientais-da-hidreletrica-de-xingo/

…”Atingiram tanto o espaço natural quanto a sociedade, de forma que esta foi afetada em consequência dos impactos que se alastraram, a princípio, na natureza. Desse modo, o fato não pode ser percebido como impacto ambiental apenas, pois além de atingir o meio ambiente causou consequências ao próprio homem.

Demolição da cidade de Canindé para que a hidrelétrica fosse erguida.
Morte de animais nativos e modificação da flora.
Desaparecimento de alguns trechos do rio.
Deslocamento da população ribeirinha (área considerada de risco).
Limpeza da área ao redor da represa.
Destruição de matas e habitats.
Retirada da população ribeirinha que perde sua moradia.
Alterações na temperatura da água devido à geração de energia.
Muitos peixes não se adaptam
Aparecimento de espécies de peixes, desviadas de outras regiões para a da usina, que vão competir com os peixes próprios da área da hidrelétrica”

http://meuvelhochico.blogspot.com/2012/05/usina-hidreletrica-causa-danos-bacia-do.html

…”A perda da vazão natural afeta populações ribeirinhas e a reprodução de várias espécies de peixes.
O rio São Francisco é, hoje, um cano com água, que atende prioritariamente ao setor hidrelétrico.” A denúncia é do presidente da Sociedade Socioambiental do Baixo São Francisco – Canoa de Tolda e coordenador da Câmara de Baixo do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Carlos Eduardo Ribeiro Júnior. Para manter nove usinas em operação, o regime hídrico da bacia do rio passou a ser controlado tecnologicamente, alterando a vazão natural.
Segundo Carlos Júnior, o problema teve início há 30 anos, com a instalação da usina de Sobradinho (BA), que teria afetado o ciclo das cheias e prejudicado as comunidades ribeirinhas do Baixo e do Médio São Francisco, tradicionais agricultoras de arroz, milho e feijão. “Todo mundo sabia que com a usina o rio ia mudar, isso era óbvio, mas a primeira preocupação foi com a geração de energia elétrica”, relata ele.
O controle hídrico artificial do rio também afetou a reprodução das espécies de peixes da região, chamadas de ictiofauna. “Com a vazão regularizada, mas sem a pulsação natural, as lagoas marginais estão secas. Por causa das barragens, o sedimento, aquela massa cheia de matéria orgânica e nutrientes naturais, acabou. O normal era termos uma água barrenta, não essa que parece de piscina”, ressalta o presidente da Canoa de Tolda.
Além dos impactos provocados pelas usinas hidrelétricas, a própria população local também tem participação no agravamento da situação atual, na região do Baixo São Francisco. A ocupação desordenada das margens e o desmatamento têm ocasionado um processo de erosão e assoreamento graves, de acordo com Carlos. “Observamos um retrocesso da linha costeira, porque não há mais sedimentos. O rio não está mais contribuindo para estabilizar o litoral Norte de Sergipe.”
“Também queremos participar dos processos de licenciamento de barragens, o que ainda não acontece. As hidrelétricas acreditam que contribuem com o rio por meio do pagamento de impostos, mas o dinheiro não compensa os prejuízos provocados até agora”, salienta o presidente”….
Fonte: Canoa de Tolda

Mais um pouquinho da Gruta do Talhado, no Cânionss de Xingó

https://meuvelhochico.blogspot.com/2013/09/problemas-ecologicos-do-rio-sao.html

…”Antes da construção de Três Marias, o rio tinha um ciclo natural de cheias e vazantes, caracterizadas pelas épocas das chuvas e da seca em toda sua extensão. Com isso, as margens se expandiam e se retraíam sazonalmente, irrigando as margens e abastecendo as lagoas vicinais, verdadeiros berçários de peixes, aves e mamíferos. Na enchente, as fêmeas saíam pelos canais até as lagoas e lá depositavam seus ovos, que eram fecundados pelos machos reprodutores. Esses ovos davam origem aos alevinos, que cresciam nas lagoas até as próximas cheias, quando então retornavam ao rio.

Com a construção da hidrelétrica, o regime do rio se modificou, e o homem passou a controlar sua vazão conforme seus interesses, reduzindo drasticamente esse processo cíclico de reprodução e de abastecimento das lagoas. Não somente os peixes foram prejudicados, mas toda cadeia alimentar de todas as espécies que utilizavam as lagoas como berçários naturais, principalmente os pássaros e felinos. É evidente que a população de todo ecossistema sofreu dramática redução, inclusive com o desaparecimento de muitas espécies, em especial dos felinos e dos grandes peixes.
As fazendas às margens do rio também tiveram outra participação importante nesse processo de degradação ambiental. Eliminando as matas ciliares, as barrancas do rio ficaram vulneráveis ao ciclo das chuvas, sendo arrancadas em grandes blocos de terra lançados dentro do rio. Isso provocava três efeitos críticos: primeiro, o alargamento do rio pelo desabamento gradual das margens; depois, esses grandes volumes de terra reduziam a profundidade do rio, em um fenômeno conhecido como “assoreamento”; finalmente, o aumento da temperatura do rio, devido à menor profundidade das águas. Todo esse processo causava não apenas a redução da ictiofauna, mas também o aumento significativo da evaporação das águas do rio, reduzindo seu volume e sua vazão. Vale destacar que o São Francisco se encontra na região do Semiárido, onde na maior parte de sua extensão o volume de chuvas não passa de 300 mm/ano!

A barragem da represa teve, ainda, outro efeito devastador: muitas espécies de peixes têm seu ciclo de vida regulado pelas estações do ano e, no segundo semestre, começa a migração no sentido da foz para a nascente, conhecido como “piracema”. As fêmeas de cada espécie desovam sempre na mesma época do ano, percorrendo as mesmas distâncias. Porém, encontrando um obstáculo intransponível em seu caminho, não conseguem prosseguir e tentam desovar ali, aos pés da barragem. A desova prematura não permite a fecundação plena dos ovos, e a população diminui constantemente até sua extinção. Só sobrevivem aqueles que se adaptam ao novo ciclo do rio.

Do outro lado da barragem, outro fenômeno perverso acontece: o rio, que corria em sua velocidade e declividade natural, encontra a barragem e para, formando o grande lago artificial. As águas paradas favorecem um processo físico de sedimentação, tornando as águas cristalinas, e desprovidas de seus nutrientes naturais. Peixes de correnteza, que também dependem da turbidez das águas, perdem a capacidade de caçar, e desaparecem gradualmente, provocando transformações na cadeia alimentar.

As águas profundas do lago artificial da represa provocam alterações no pH e na temperatura, que também afetam a reprodução das espécies que habitam o rio. Do outro lado da represa, o grande volume de água despejado pelo vertedouro e pelas turbinas também provoca alterações substanciais no substrato e nas próprias águas do rio. Toda cadeia de vida é profundamente afetada pela construção da barragem, que separa o rio em duas partes completamente isoladas. Já não é mais um rio somente, mas dois!
O rio São Francisco possui cinco hidrelétricas e oito barragens: Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso (I, II, III e IV) e Xingó. É como se houvessem nove pedaços de rio, isolados por barragens, em um mesmo ecossistema. Para agravar ainda mais os impactos sobre a ictiofauna, nas represas foram introduzidas espécies exógenas, principalmente carpas, tilápias, tambaqui, pacu-caranha e o bagre africano. Essas espécies, por serem desconhecidas dos peixes nativos, não encontram predadores naturais e acabam por proliferar e dizimar grande parte das espécies nativas.

A Hidrelétrica de Sobradinho, no ano de sua construção (1970), produziu o maior lago artificial do mundo em volume de água, alagando uma extensão de 400 km e uma largura máxima de 25 km, desalojando cerca de 70.000 pessoas e deixando submersas as cidades de Pilão Arcado, Casa Nova, Remanso, Santo Sé e Sobradinho. Além do deslocamento de toda essa população, com graves impactos sociais, Sobradinho alterou todo ciclo de vida do rio, eliminando centenas de lagoas marginais que sustentavam a riquíssima vida silvestre que, em grande parte, desapareceu para sempre.
Os problemas do Velho Chico são imensos e não se esgotam nesta pequena avaliação. Estima-se que o rio perdeu cerca de 75% de seu volume original de água desde que foi descoberto. Hoje, sua vazão na foz é de 2.700 m³/s e continua diminuindo. A 50 km da foz as águas são salobras e detecta-se sal marinho até a 250 km da foz. Ainda não se conhecem os impactos da transposição, e estão planejadas mais duas grandes hidrelétricas, ambas no baixo São Francisco, além de centenas de pequenas centrais hidrelétricas em seus afluentes. As obras de revitalização são poucas e insuficientes, e o desrespeito ao Código Florestal causou impactos irreversíveis em toda extensão do rio. Por isso, dizem que o Velho Chico está morrendo, levando consigo lendas, tradições e sua beleza incomparável”…

 

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