Nossa primeira trilha com um deficiente visual

#crônicas

Foi no Carnaval do ano passado, 2017.

Havíamos agendado a nossa visita para o Parque Estadual de Intervales com a antecedência costumeira, desde setembro/outubro do ano anterior. O cunhado chamou um amigo que há muito ouvíamos falar, mas não conhecíamos pessoalmente.

Um infortúnio fez com que a família do cunhado não pudesse nos acompanhar na viagem, mas decidimos continuar com os planos da viagem.

Encontro marcado no mesmo bat local e bat horário e conhecemos finalmente o tão falado casal.

Sônia chega, magrinha, ágil, falante, num gostoso sotaque nordestino de braços dados com o Sérgio, também jovial e desembaraçado.

Nos cumprimentamos e vamos para um cafezinho preto. Percebo o desembaraço e a agilidade dele nas pequenas coisas. Na manipulação da xícara e do copinho de água, na memorização imediata de onde estão a exata localização dos objetos. Ele consegue distinguir a minha voz da Júlia, que dizem ser absolutamente iguais ao telefone. A única pessoa que até então conseguia nos distinguir ao telefone era um antigo chefe. O Ogro não consegue. Minha mãe também não.

Partimos então para os 250 km de estrada.

Cachoeira do Mirante-Pq. Estadual de Intervales-SP

Check in feito, chegada dos compadres Thiago e Lizanda, partimos para a trilha que normalmente “inaugura” nossa chegada, a Cachoeira do Mirante. Trilha básica para dar uma desenferrujada e para o primeiro batismo de cachoeira da temporada.

Nosso guia “oficial” Robson, já conhecedor da situação nos acompanhando sempre, não poderia ficar de fora desta vez.

Acredito que tenha sido a primeira trilha, “trilha” do Serginho.

Retomamos o cuidado que tínhamos com crianças na época que começamos com a Júlia, com a diferença que os detalhes seriam maiores.

Fizemos como fazíamos com criança (na ocasião a regra era uma criança sempre no meio de dois adultos).

Desta vez colocamos o Sérgio entre o João e o Thiago e o Robson guiando lá na frente.

Seguimos também tentando orientar de maneira que pensamos que pudesse facilitar a caminhada do Sérgio.

-”Tem uma pedra grande escorregadia onde você vai colocar o seu pé esquerdo…agora um degrau quando for colocar o pé direito”…

E assim seguimos até chegar à Cachoeira.

João e Thiago ajudaram na aproximação da cachoeira até o primeiro banho de cachoeira desde os 8 anos de idade (isso o Serginho contou para gente).

A surpresa, a alegria, aquela cena de contentamento, de prazer que nós podemos ver e sentir lá do alto onde estávamos vai ficar na memória para sempre.

No dia seguinte, outra trilha, a do Mirante. Mas… do mirante… para um deficiente visual… mas tinha a trilha gostosa, com um pouco de subida no final sim, mas a clareira lá em cima, pegar aquele vento no rosto, no corpo todo, talvez valesse a pena….

A trilha começa com uma “escadaria” larga, um caminho gramado com uma leve inclinação ascendente até a bifurcação à esquerda, que leva para mais uma outra escada, íngreme desta vez e depois vai ziguezagueando até lá em cima. Fácil!! A gente já conhecia o caminho de cor #SQN… Conseguimos errar o caminho… o zigue zague fácil, só subindo, subindo, virou um emaranhado de galhos, ramos, folhas, teias de aranhas que a gente foi comendo, onde percebemos claro, que o caminho estava errado.

Tarde demais para voltar, achando que chegaríamos logo, continuamos arrastando o pobre coitado do Serginho e a Sônia até lá em cima…

Descobrimos nesta trilha que o Thiago, por ser bem mais alto que o João oferecia um apoio melhor e conseguia “guiá-lo”.

Eu acabada com o Sérgio do meu lado depois de pegarmos o caminho errado para a Trilha do Mirante do Anta, no Pq. Estadual de Intervales

Passei um dos meus bastões de caminhada (sempre caminho com dois) para ele experimentar. Sérgio então disse que se sentiu mais seguro, porque assim ele sentia os movimentos do Thiago e conseguia modular os seus próximos passos tendo uma das mãos apoiadas no ombro do Thiago e com o bastão  na outra mão, conseguia o apoio e segurança necessários do outro lado.

Desta forma, se seguiram as outras trilhas ao longo do feriado.

Um momento de descontração no parquinho do Parque Estadual de Intervales

Aprendemos algumas coisas e ele também nesta primeira empreitada. E fomos aprendendo outras, que contamos nos posts que se seguirão nas outras viagens que fizemos juntos.

A grande pergunta: “Será que foi traumático?? A pessoa nunca mais iria querer fazer outra trilha na vida?”

Conversamos muito depois, em grupos de whats app, pessoalmente, em outras saídas, sobre novas possibilidades e novos roteiros.

Alguns meses depois, nos visitaram em casa. Descemos todo o equipamento nosso para ele poder “ver” e entender algumas especificações técnicas para a compra do seu próprio equipamento.

Mochila, bota, barraca, bastões,  sleeping bag e pad, alimentos liofilizados, tipos de roupas, fogareiro, pratos, talheres…etc, etc, etc….

Não… eu acho que a pessoa não ficou traumatizada…

Acho que contaminamos mais uma pessoa com o bichinho trilheiro, isso foi..

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