Uma noite num motel

#crônicas

Esta semana, como todos os brasileiros, fui envolvida e sofri as consequências da greve dos caminhoneiros.

Não se trata de questões políticas, ideológicas e partidárias… cada um tem a sua opinião e tome conta do que lhe cabe… ou não..

O que eu estou contando é um pequeno causo, entre todos os milhares que se sucederam no país, aqui e acolá…

Eu, como todos os envolvidos sentimos e percebemos a falta de coisas corriqueiras e cotidianas  que de tão banais acostumamos a ter e usufruir e não prestar atenção quando temos…

Pois bem…. meu causo começou como de muita gente… a falta de combustível para ir trabalhar…(peço aqui que os mais puristas e ideológicos não me ataquem pedras porque venho ao trabalho de carro). Trabalho na periferia da cidade de Guarulhos, cidade que não tem até hoje infra estrutura de transporte que conte com metrô ou trem, donde se conclui que tudo é um pouco mais moroso. A distância média da minha casa  é de 40 km. Fui algumas vezes utilizando o transporte público… Levei cerca de 2h30 para ir e para voltar… quando tudo correu bem e consegui emendar um transporte no outro…… isso é só para dar o vislumbre geral.

Daí, em contas toscas (porque eu não sei calcular o gasto médio de combustível por quilômetro rodado… me poupe gente, eu nunca fui boa em matemática), calculei que se gastava 2 pauzinhos de gasolina para ir e voltar de Guarulhos, teria que ter x pauzinhos para fazer y viagens… e a conta não fechou…

E por conta da minha carga horária recebo uma gratificação que não é paga se tenho qualquer intercorrência… não posso ter afastamento, faltas, atestado médico ou outro tipo de ausência… e não só para mim, mas para qualquer um, é um desconto que faz falta no final do mês…Fazer essa conta foi fácil… uma noite num motel que ficava há 1,5 km de distância do meu trabalho custava 12 vezes menos que perder a gratificação.

Daí, uma ligação para o Ogro e nesta conclusão de muquiranice x “espírito de aventura” foi fácil decidir: -”vou passar a noite no motel”!!!!

Fácil!!! Pensei… já fiquei em lugares inimagináveis… temos quilômetros e quilômetros rodados em hospedagens diversas… já fiz bivak em caverna, dormi em hostel de diversos tipos e calibres, dormi em rede, em colchonete, em sleeping bag, em cama com colchão de palha. Acampamento já estamos mais que acostumados… pousadas, pensionatos, hotéis, apartamentos, casas assombradas… ia ser ó… facim… ia tirar de letra!!

O básico já tinha me precavido.. uma sacolinha básica no carro com pijama, chinelo e uma muda de roupa para o dia seguinte… teria toalha e cobertor no quarto. O que mais eu poderia querer???

A diária corria  a partir da entrada. 12 horas… então como eu começo a trabalhar às 07h00, saindo 06H40, 06h45 seria tempo mais que suficiente para chegar… então teria que entrar por volta das 18h30~por aí… Passei no mercado e comprei guloseimas… uma bandejinha de mini esfihas, uma bandeja com conchiglione, um pacotinho de pão de mel e água mineral. Pronto.. minha farofa noturna estaria completa e farta!!!

Entrei, apertei o botão e a voz do outro lado da janela de vidro com revestimento fumê e totalmente impossível de se ver me atendeu. Expliquei toda a situação, a moça me perguntando se estaria sozinha… “-Claro!”… e ela me colocou perto da recepção pelo meu pedido.

Me encaminhei para a minha suíte…

Paredes cor de rosa.. não.. pink. Com aquele branco encardido e pontos de mofo no alto, escondidos pela pintura mal acabada…Do lado direito, uma mini mesa feita de pequenos azulejos e duas banquetinhas de ferro com os pés enferrujados… Do lado esquerdo uma meia parede com tijolos de vidro no meio….Atrás da meia parede…A cama… daquelas camas de alvenaria, revestida de azulejos brancos faltando peças…aqueles colchões que são revestidos de napa, não de tecido… espelhos em mosaico no teto, claro e na cabeceira da “cama”.

(Senti falta da Jasmin vindo me receber na porta e do cheiro da minha casa…)

Do lado da cama a porta para o banheiro… chuveiro, vaso sanitário e pia… Só…

Nada combinava com nada… tampo do vaso de uma cor, azulejos de outra, faltando peças em vários lugares, claro…

E o cheiro reinante… de desinfetante barato com um misto de não sei que cheiro…

Respirei fundo (não tão fundo) e fui “arrumando”  os meus apetrechos… tirei o sapato e coloquei o chinelo para uma sensação mais “aconchegante”…

(Senti falta de chegar em casa,  tirar o sapato, colocar no tapetinho de entrada e colocar o chinelo de casa que fica junto, dando o wellcome home….)

Liguei a TV para me distrair… Ficava bem em frente à cama… tão pequena que tinha que me esforçar para tentar ver o que se passava. (Não dou a mínima para a TV de casa… nesta hora pensei nela)….notícias e notícias sobre a greve.. manifestações e bloqueios na Rodovia… Pronto… pensei… agora não tem jeito mesmo… Se tinha alguma esperança, a violência vislumbrada na TV e o receio de ficar andando sozinha de carro, no meio da noite me fizeram desistir de vez e encarar mesmo a noitada….

Amigos e familiares nos grupos do whats app, com comentários do tipo de diversões sozinha, novas atualizações sobre o estado de sítio de alguns lugares ou da eventualidade de não dormir pelos rumores noturnos, preocupações da mãe e da filha sobre estar num lugar tão ermo….me distraíram um bocado por muito tempo…

Resolvi comer um pouquinho… achei formigas na mesinha de azulejo…comi duas esfihas pequenas….e olhava para as formiguinhas…(Lembrei do veneno que tenho logo lá no meu armário de limpeza)… abri a bandeja de conchiglione… bom… mas os olhos foram maior que  a boca. Comprei coisas demais… (Senti falta da geladeira… e de poder guardar essas coisas “para amanhã”).

Fui levar as coisas praticamente intocadas para a recepcionista, que agradeceu gentilmente. Percebi que estava asfixiando com o cheiro reinante no quarto. Lembrei do ventilador visto e deixei ligado mais de meia hora para ver se o cheiro ia embora. (Senti falta nessa hora das inúmeras portas e janelas de casa, que ventilam tanto que vivo passando frio.)

Resolvi tomar banho.. quem sabe a água quente ajudaria a tirar o cheiro… só que salientou… passei a sentir como se fosse o cheiro de outras pessoas…sim… acho que era o cheiro dos “hóspedes” anteriores…Uuuugh!!!!!

Mais um pouquinho de whats app e TV e notícia e fui tentar dormir…

Aquela fronha puíiida, suuuja me fizeram colocar a segunda toalha para conseguir deitar. O cobertor dado pela recepcionista estava limpo pelo menos aparentemente.

Dormi do lado esquerdo da cama, (do meu lado usual) e o cansaço me fez desmaiar… mas ainda deu tempo de sentir falta (ele não vai ler mesmo…rsrs…) do Ogro, do peso do meu futon, do cheiro que fica nas nossas cobertas e da Jasmin que vem sorrateira no meio da noite e dorme bem em cima das minhas pernas, me deixando imobilizada com receio besta de acordar a bichinha…

Acordei algumas vezes, com falta de ar, por causa do cheiro forte ainda….

Acordei com o alarme do celular, me arrumei e avisei, conforme o aviso no papel que estaria saindo para a recepcionista vir inspecionar o quarto, que ela disse num tom simpático, “Não moça, não precisa… vai querer café??”

Eu não queria prolongar ainda mais a minha permanência, mas queria um café preto e perguntei se conseguiria um cafezinho preto e ela disse que eu poderia ir até a cozinha.

Fui atendida por uma simpática senhora, falante, numa cozinha impecavelmente limpa, que me serviu café recém coado num copo de vidro e perguntou se eu queria pãozinho chapeado… já estava meio em cima da hora, por isso recusei…

Esta foi a única parte da estadia que não me deixou arrepiada…foi agradável.

Não vou dar o nome do lugar por razões óbvias.. recomendo a experiência… mas não o lugar….

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