Japa

#crônicas

Japa

Eu sei, é pejorativo…

Mas vamos combinar que é o usual… Ou Neusa, japoneusa, Japão, China… até os amigos (alguns) me chamam assim. E não adianta falar que eu tenho nome,  a coisa piora.

Quando eu era criança  era pior.

Veja, não sou tão nova, então não sofri o mesmo preconceito que os meus pais sofreram, ecos da história, Segunda Guerra Mundial, aliados e eixo, mas ainda assim era meio “puxa, mas é japonesa”… A primeira reação do meu falecido sogro foi essa…

Não sei até hoje se era coisa da época, da crueldade natural das crianças, porque também tinham os portugueses, os chineses, os alemães ou se os pais, cujos pais falavam desse jeito em casa refletiam a idéia.

Vinham as coisas boas, como só de olhar para nossa cara achavam que éramos responsáveis, trabalhadores, honestos, esforçados e principalmente inteligentes.Como se etnia definisse alguma coisa…mas temos a dimensão disso somente após uma certa idade e experiência. Infelizmente.

E também, diante disso todas as coisas que não eram próprios à nossa personalidade, habilidades  ou não correspondiam  ao estereótipo idealizado eram recriminadas.

Nunca, (tirando o 1º Grau, que na minha época ia até a 8ª série) fui boa em matemática. Como seria o óbvio e esperado. Mas a coisa degringolou mesmo na faculdade. Já não entendia lhufas da língua estranha falada em matemática. A base de ensino público em escola estadual uma lástima, então eu ficava olhando aquelas equações, contas e ficava perdidona. Ainda hoje sou uma farmacêutica que não sabe fazer conta de equivalência e diluição.

Ah! Mas você deve jogar ping-pong muito bem!!! Primeiro, isso é chinês.  Gente, eu não enxergava e não enxergo a bolinha… a minha única relação com bolas foram desastrosas. Nas aulas de educação física, que eram um dos meus piores pesadelos eram as bolas voadoras e perdidas que acertavam a minha cabeça e sempre (sempre!)  jogavam para longe os meus óculos.

Mas… agora vamos aos clichês…

Não, antes que perguntem não como sushi e sashimi todos os dias. Vejam, isso é comida de festa. É como se a gente fizesse churrasco todos os dias. Ah! E yakissoba também é chinês.

Mas, de preferência comemos o shirogohan, que é o arroz do tipo japonês, sem sal, sem óleo e sem tempero. Sim, vou ao Bairro da Liberdade constantemente para me abastecer. Sim, meu marido que não é descendente já acostumou e a bem da verdade sente falta do shirogohan todos os dias.

Fiz nihongakko (escola de japonês) quando criança. Leio bem porcamente, falo menos ainda, mas é só escutar um pouquinho aqui e ali que a memória volta e consigo entender quase tudo.

Tenho um pequeno altar sim, com velas, incenso e as fotos dos meus ancestrais, com um pequeno gongo e todas as nossas missas e orações são nos templos budistas. E fazemos missa com festa, como vocês acham esquisito. Que na verdade não é bem isso, mas não cabe a mim explicar nesse pequeno pedaço. Ainda fazemos missas nos anos cabalísticos e importantes para a religião e como diz uma prima minha, a pessoa até  reencarnou e ainda continuamos a fazer missa…

A.d.o.r.o um banho de ofurô. Eu tenho um aqui em casa que na última mudança há 10 anos ficou de ser instalado e acabou ficando encalhado por aqui, jogado. Não tem nada mais relaxante e revigorante que um banho de ofurô depois de um dia estressante.

Mantemos e prezamos pela reunião de Ano Novo, o Oshoogatsu, assim como aqui é importante o Natal. E comemos ozooni, que é uma sopa tradicional degustada especialmente neste dia.

Poderia e vou descrever todas essas nossas peculiaridades ainda, em todos os aspectos.

Não sei por quanto tempo ou quantas gerações ainda manteremos isso e o quanto serão transmitidas, mas percebo como a mistura e os costumes e tradições podem coexistir pacificamente. Ninguém nem nenhum costume precisam se sobressair ou ser mais importantes que um ou outro. E isso não é o princípio da civilidade?

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