O que meu filho aprendeu viajando

Minha criança já não é mais criança. Está no último ano do ensino médio e vestibulanda. Numa oportunidade rara de possível conversação entre uma apostila e outra perguntei a ela sobre o tema.

Este post faz parte de mais uma uma edição de blogagem coletivas. Esse aqui é do grupo do Facebook:  Assuntos de Blogueiros –Viajando em Família 

O tema eleito desta vez é o: “O que meu filho aprendeu viajando”

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Torrinha- SP-2006

Esperava uma resposta com ternura, em doces palavras o quanto foi edificante e o quanto isso ficaria na sua memória e guardaria esses momentos…etc, etc, etc…

Ela me olhou de soslaio e respondeu: “a arte da carestia”. Assim, um tapa na cara. De uma vez só. Pah!!!

Acredito que a maioria dos blogueiros do grupo ainda estejam com as crianças pequenas, não devem ter passado pela fase da aborrecência ainda, mas tenho que modéstia a parte dizer que a Júlia sempre foi muito sossegada.

De novo, a pergunta que sempre faço para mim mesma: ela é assim porque é sossegada naturalmente ou é fruto da criação/ambiente/experiências e muquiranices do pai. Sim. Ele é a reencarnação do seu Nonô Correia, para quem lembra do personagem que personifica a avareza.

Juro que não sei.

Quem tem a explicação para o filho certeira? Quem tiver me conte.

Dito isto, vou para a parte da pequena explanação e das observações ao longo desses 17 anos que passaram voando!!! SNIF…..

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Parque Estadual de Intervales- SP-2006

Vou começar explicando o porquê dessa resposta certeira, na ponta da língua.

Nunca fomos ricos. Riqueza x quantidade de dinheiro acumulado é uma questão bastante subjetiva e varia de pessoa para pessoa. Nem no núcleo familiar a gente concorda 100% não é não?

Então, acredito que como a maioria das famílias viajantes, nossa prioridade sempre foram… as viagens.

Tirando a subsistência básica lógico, nunca fomos de gastanças loucas. Não vou ficar muuuito no mimimi aqui. Não compro roupa/sapato/maquiagem, não vou a salão de beleza toda semana, não vamos a manicure, não temos ajudante em casa e agora com a situação econômica ruim para a nação em geral, o padrão caiu mais um pouquinho ainda.

Quando a situação melhora um pouquinho a gente vai comprar coisas?

Não.

A gente gasta em viagens.

Então a primeira coisa que a Júlia sente, desde pequena é isso.

A gente economiza daqui, puxa o freio dali, ela não tem, não frequenta e não ostenta as “coisas” que as amigas e parentes da mesma idade têm.

Mas ela viaja. E quando a gente viaja, vive uma vida de conforto e pequenos luxos por alguns instantes (horas ou dias ou semanas).

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Cunha-SP -2005 Feliz da vida porque um carro nos deu carona depois de pegarmos uma chuva torrencial no meio da trilha

Uma constatação dela mesma que comentou comigo nesta semana de provas, mas que tem vergonha de comentar com as amigas para não parecer esnobe: ela disse que praticamente não precisa estudar para geografia (a parte física, vegetação, relevo, essas coisas). Ela simplesmente visualiza o local e puxa pela memória, tudo é muito claro e ela não precisa decorar o texto. É só lembrar do que ela viu. Exemplo: Região Sul do Brasil: vegetação: pampas, clima: subtropical. E assim vai.

Para por aqui a exposição que ela se dá. É extremamente discreta para falar dela mesma. Selfies e fotos com biquinho não fazem muito a cabeça dela

Daqui para frente são as constatações de modo resumido, de mãe, que compartilho com vocês.

Nós somos trilheiros/mochileiros para quem não sabe. Também gostamos da Disney, de passeios culturais e museus então são diversos mundos paralelos convivendo aqui em casa.

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Trilha de Salkantay- Peru- 2012

O que ela aprendeu com as viagens trilheiras/mochileiras:

-a ter persistência e a famosa palavrinha de hoje: resiliência

Caminhar pensando bem (nem tão bem assim), não é nada gostoso. Gosto do resumo que sempre uso de um senhor que nos guiou na Chapada das Guimarães. Caminhar é agonia e sofrimento para criança: tem bicho, tem calor, tem cansaço, tem sede e fome. Lógico que sempre levamos água/comidas/sucos, mas… ainda tinha a parte do andar, que cansa prá caramba. Mas depois tinha a recompensa da cachoeira, do banho no poço de água gelada.

Nos acampamentos, ela aprendeu que um simples banho de água quente é um luxo, que não dá para ficar meia hora lavando o cabelo porque tinha fila (e grande!) atrás dela, que uma sopa de letrinhas depois de uma caminhada é a melhor comida do mundo e o melhor colchão do mundo e o melhor sono é feito de um cansaço grande depois de um esforço físico.

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British Museum- Londres-2015

O que ela aprendeu nas viagens culturais:

-as diversidades e daí o consequente respeito pelas culturas diferentes

Lembro na Trilha de Salkantay, no Peru, a gente andando, passando de uma montanha para outra, encontramos estudantes, meninas ainda, uniformizadas indo para a escola. E elas puxaram papo com a gente, brincando de tabuada. E conforme íamos nos distanciando íamos gritando os resultados e elas gargalhando. Ou em um dos acampamentos, a criança trazendo o caderno para uma fogueira que havia sido montada na frente da casa e ela estudando no calor e na luz do fogo. E o guia comentando que a Júlia deveria estudar sentadinha na mesa dela, com a luminária, bem diferente, né.

A variação e diversidade de comidas locais. Não dá para viajar tendo restrições alimentares, salvo alergias, ou uma ou outra comida que não vai de jeito nenhum. Mas não dá para você chegar no mundo todo e quiser que tenha arroz e feijão, né?

E tirando algumas coisas bem locais, tipo o cuyo (aquele porquinha da Índia em Cuzco), experimentamos o prato típico local. E ela acostumou assim desde pequena. E aprendeu a apreciar essa diferença. E cada vez que lembramos de um lugar, uma das primeiras coisas que remetemos é a comida típica local.

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Vale Sagrado- Peru-2012

Aprendizado de modo geral

O aprendizado da língua também acredito ter sido alavancado pelas viagens.

Ela já tinha uma facilidade anterior, fez aulas em escola de inglês normal e depois achou que eu estava jogando dinheiro fora porque ia para a escola e passavam filmes/séries em inglês e ela disse que para fazer isso fazia em casa. Hoje em dia faz aula particular.

Mas nas viagens, é onde tem que aplicar de verdade o que aprendeu.

Só preciso contar que ela é igualmente severa comigo. Ela primeiro faz eu me virar sozinha, porque só assim eu vou aprender, segundo ela. Quando a coisa começa a empepinar, aí tenho que chamar ajuda, se não é bem possível irmos parar em lugares completamente diferentes do que procurávamos. E ainda tenho que ouvir: -“Como é que você vai fazer quando eu não estiver com você hein?”

Aprendeu, a duras penas, coitada, a valorizar conhecimento e experiências. E achar efêmero e fútil as “coisas”.

E troca cada dinheirinho extra/mesada pela coleção de livros que não dá, não troca e não vende por nada deste mundo. Ou por discos. Sim. Vinil. Inclusive acabou herdando os meus, uma coleção antiga feita de música pop dos anos 80 e música clássica.

E para finalizar esse post, só posso concluir que todos os museus que costumamos visitar quando viajamos, mais as ruínas e as histórias que ela ouviu e leu, a explosão de cores, língua e cultura diferente foram fatores que contribuíram para decidir inclusive sua escolha profissional.

Ela escolheu cursar  Arqueologia.

 

Outros blogs participantes desta edição de blogagem coletiva:

1-Viagens que sonhamos

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27 Comments on “O que meu filho aprendeu viajando

  1. Pingback: O que nossa filha aprendeu em viagens - Malas e Panelas

  2. Márcia,

    Mas não é “muito luxo” puxar as coisas da memória?
    Tenho certeza que experiências são as melhores coisas que podemos deixar para os nossos filhos.

    Feliz Dia das Mães!
    Beijos,

    Fran @ViagensqueSonhamos

    • Oi Fran!
      Então, parece esnobe de fato, mas é o resultado da vivência deles.
      Já vi que o Dodô vai pelo mesmo caminho também!
      Um beijo!

  3. que resposta dela heim!!!!!!!!!!!!! kkkk Sabe que somos bem assim mesmo, quando pensamos em comprar algo logo desistimos pois queremos guardar para viajar e nossa filha acabou crescendo nesta mesma batida, não é nada consumista. Será que se eu fizer esta pergunta ela também vai pensar nisso??? rsrsr

    • Oi Rege!
      A coisa em casa é meio militar mesmo…rsrs…
      Mas foi e é isso que nos proporciona a oportunidade de pensarmos mais e mais em viagens!
      Um beijo!

  4. Pingback: O que minhas filhas aprenderam viajando! - Carregando Malinhas

  5. Pingback: Viajando e aprendendo junto com os filhos - Cantinho de Ná

  6. Me identifiquei demais. Também sou trilheira e mochileira, mas também adoro uma “viagem tradicional”…rs
    E adorei ler a experiência sob a ótica de uma mãe de adolescente ( é um futuro próximo que me aguarda!).
    Leitura muito gostosa!

    • Oi Aline!
      E o tempo passa tão, tão rápido, a gente nem se dá conta viu!
      Se prepara porque ser mãe de adolescente às vezes é barra! Mas por outras vezes é uma delícia!
      Um beijo!

  7. Muito boa a resposta dela,kkkk1
    Como o tempo passa mesmo, adorei saber que você tem uma filha de 17 anos. Meu filho tb não queria falar sobre o assunto, cada dia fui tirando alguma coisa dele. Não é fácil adolescente. Aqui em casa fazemos o mesmo, não vou no cabelereiro toda semana, não gasto em roupa etc., mas VIAJAR sempre! bj

    • Oi Solange! Como o seu moço né? É o que eu falei, é quase uma extração de dente arrancar alguma coisa deles…rsrs…
      Acho mesmo que toda família viajante acaba priorizando as viagens mesmo né?
      Abraços!

  8. Caminhar é agonia, Marcia, adorei essa! Tb quero fazer a trilha de Salkantay!
    Nós aqui também priorizamos os gastos em viagens. Se o Lipe for por esse caminho, acho que fizemos um bom trabalho. Adorei teu post, muito, mesmo!
    Bjokas,
    Claudia@pequenoviajante

    • Caminhar é agonia e sofrimento! Isso me marcou pelo resto da vida também Cláudia!
      Salkantay é lindo, mas igualmente sofrido.
      Eu não aguentei a trilha toda. O guia me mandou subir no cavalo. Ele não perguntou. Ele mandou!
      Tenho certeza que o Lipe vai seguir um caminho lindo e brilhante!
      Beijos!

  9. Que máximo a sua experiência, ainda estamos “engatinhando”, mas nossos pequenos já aprenderam muito também. Quero me aventurar mais com eles em uma viagem de mochileiros, assim que achar que aguentaram e não sofreram..

    Bjs Line (Por aí com os Pires)

  10. Pingback: Blogagem Coletiva: O que meu filho aprendeu viajando | Gosto e ProntoGosto e Pronto

  11. Márcia, como vocês são ricos…. Ricos de cultura, conhecimento, convivência e amor. Esse é o melhor caminho que vocês “trilharam”!!!! E no final da história é o que mais vai importar, tenha certeza disso. Um grande bj e que sua vestibulando continue a trilhar lindos caminhos como o de vocês!!!! 🙂

    • Oi Débora!
      Obrigada! É um alento ouvir essas coisas!
      Nesses tempos difíceis e turbulentos, esperamos realmente estar trilhando um caminho bom e que deixe boas lembranças!
      Um grande beijo!

  12. Adorei seu post! gostei muito de ter esse “vislumbre” do futuro, já que minhas filhas estão aprendendo muitas das mesmas lições e elas ainda são crianças. Legal ver que lá no futuro esse investimento em viagens realmente se confirma!
    E confesso que me deu um aperto no coração ao ler “17 anos que passaram voando…”
    Bjs!

    • Oi Simone!
      Pois é, realmente, quando a gente menos espera, os filhos estão voando.
      Por isso que eu digo pra todo mundo aproveitem, aproveitem!!!
      Até ontem a sala estava cheia de bonecas, casinha de boneca, depois passa para as roupas e maquiagens jogadas por aí e aí, já foram…
      Mas se tem uma coisa que a gente não se arrepende de jeito nenhum é de termos desfrutado esses momentos juntos! É o melhor investimento!
      Beijos!

  13. Seu texto me arrepiou!!! Você é uma mãe guerreira como muitas mães, você deu tudo de si para sua filha e ela reflete cada momento que vocês viveram juntas. Talvez, realmente ela não consiga passar tudo que aprendeu nas viagens, pois sua cabecinha está focada nos estudos, mas tenho certeza que daqui alguns anos ela estará fazendo exatamente o que você ensinou a ela, mas com seus próprios filhos!!! Parabéns pela sinceridade, ficou lindo o post!!! Abraços.

    • Oi Ana Paula!
      Foi um post meio desabafo mesmo, não tão carinhoso como os outros talvez…rsrs…
      Sim, sei que ela está focada nos estudos agora mas… ainda bem! Sinal que todo o nosso esforço e dedicação também foi passado para ela e ela faz jus a isso!
      E obrigada, de coração. Esses comentários que vocês estão fazendo me atenuam a dor da síndrome do ninho vazio…rsrs…
      Beijos!!!

  14. Acho que você foi bem perceptiva descrevendo o que sua filha aprendeu nas viagens. Com certeza ela há de levar toda a bagagem cultural para sempre.

    Beijo,

    Claudia
    @AsPAsseadeiras

    • Oi Cláudia!
      Obrigada pela leitura e pelo comentário!
      Espero realmente que ela carregue todo o aprendizado e a bagagem cultural com ela.
      E que aumente ainda mais este aprendizado!
      Um abraço!

  15. Pingback: 10 coisas que as crianças aprendem viajando | Família Viagem

  16. Márcia, como você, faço parte da minoria com filhos maiores, meu caçula está com 13 anos. E muito do que você citou no post eu percebo aqui em casa. Imagino sua cara com a resposta de Júlia, fiquei rindo sozinha aqui e li ansiosamente o texto pra entender e o porquê…nossos filhos nos ensinam sempre :).

  17. Olá! Você tem o privilégio de ter uma filha maior do que a maioria das nossas, então, o aprendizado com viagens já é de muitos anos, e com mais consistência e sentido prático. Fiquei bastante satisfeito por constatar que, assim como vocês, nossa família tem padrão de vida semelhante, e o maior investimento que sempre fizemos foi em viagens. Bom saber que não estamos sozinhos e no caminho certo! Obrigado! abraços, Carlos.

    • Olá Carlos!!!
      Sim, depois de 17 anos, também não me arrependo em nada de ter escolhido esse investimento em nossas vidas, do que acumular coisas.
      E vejo que todas as famílias viajantes também valorizam esse investimento!
      Um grande abraço!
      Marcia

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